Sobre regulamentação e computação

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Participo de algumas listas de discussão em computação e a regulamentação da atuação profissional na área é um assunto que aparece mais ou menos a cada 15 dias em alguma dessas listas.

A discussão sempre se desenrola da mesma forma e  termina de forma não muito amigável, com a apresentação de argumentos muitas vezes estranhos de lado a lado.

Deixo aqui minha opinião sobre o tema, que acabei de enviar para uma dessas listas, e que pretendo reutilizar nas próximas vezes em  essa discussão voltar a surgir. :-)

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Vejo que a mera constatação de que as profissões ligadas à computação não são regulamentadas em nenhum país civilizado não é suficiente para mostrar que essa não é uma boa idéia.

Na minha humilde opinião, a única razão que justifica a regulamentação de uma atividade profissional é proteger a sociedade da imperícia dos profissionais que atuam nessa área.

Esse é o caso, por exemplo, dos profissionais da medicina e do direito. Tais profissionais são muitas vezes contratados diretamente por pessoas físicas e para estes clientes é muito difícil aferir a capacidade técnica desses profissionais a priori.

Esse não é o caso da nossa área. Por exemplo, alguém tem idéia de qual seria o percentual de contratos para o desenvolvimento de software celebrado entre duas pessoas físicas ? Eu chuto que é bem menor que 1%.

Os profissionais de computação em geral trabalham para uma empresa, o que torna a aferição da competência técnica de um profissional da área uma tarefa relativamente simples.

Mesmo assim, ainda existe o risco de uma empresa contratada, por exemplo, para desenvolver um software, realizar um péssimo trabalho. Porém, já temos leis o suficiente para regulamentar e resolver este tipo de problema.

Por essa ótica, acho inclusive, que faz muito mais sentido regulamentar a profissão de fotógrafo do que a de jornalista, por exemplo.

Essa conversa de piso salarial, aumento de salário, trabalho escravo, etc, etc, etc, que sempre vêm a tona junto com regulamentação servem apenas para desvirtuar a discussão.

Esse pseudo-argumento de que “Eu hoje ganho pouco. Com a regulamentação vou passar a ganhar mais.”  é ou uma mera ilusão ou balela de sindicalista que está de olho na infraestrutura que precisaria ser montada para restringir o acesso de profissionais a uma área que hoje, mesmo estando aberta a todos,  sofre de uma carência enorme de profissionais.

Não é tirando “os profissionais não-diplomados” do mercado que você vai passar a ganhar mais.

Se uma empresa tem R$ X para pagar sua folha de pagamento com média salarial R$ Y e amanhã um pedaço de papel diz que ela vai ter que aumentar a média salarial para R$ 2*Y o que vocês acham que vai acontecer?

A resposta é bem simples, desemprego e out-sourcing para Índia e China.

Se você tem um diploma na área de computação e tem um salário muito ruim deveria refletir se  está trabalhando no lugar certo e se o seu serviço vale realmente mais do que o que você está ganhando.

— Alexandre Duarte

Comentários

  1. Diego Alves Rodrigues diz:

    Olá professor.

    Pesquisando sobre esse assunto encontrei logo no topo das pesquisas do Google seu post. Mas discordo em alguns pontos. Vejo que a falta de regulamentação da profissão gera, entre outros problemas, um grave rombo no que chamo de “reserva de mercado de profissionais”.

    Conheço de perto casos, como o do Ministério Público do Estado do Rio grande do Norte, da Comarca de Natal, onde profissionais formados em Direito passaram em um concurso público para um setor Jurídico, e hoje trabalham desenvolvendo/mantendo o sistema utilizado lá, o SAJ. Devido a falta de regulamentação, qualquer profissional que se diga “capacitado” pode assumir uma vaga e “tomar” o lugar de um bom profissional. Nesse exemplo temos duas vagas que não irão ser preenchidas por profissionais formados na área de TI, e as duas da área jurídica que ficaram órfãs irão ser preenchidas no próximo concurso para a instituição (e o já foram) na área de Direito. Um profissional por mais “baixo” que seja, mas formado na área (ou em cursos da área), tem condições de tocar o trabalho de lá (estou tomando o caso como forma de ilustrar o que estou querendo demonstrar) de uma forma melhor que o que atualmente está sendo feito, pois um profissional que estuda apenas TI logicamente tem condições totais de ter uma gama de conhecimentos melhor, ou pelo menos usar o computador de forma adequada. Existem profissionais capacitados que ganham salários de 3 mil e estão em um BOM emprego diga-se de passagem, para a nossa região, e acredite ganham menos que esses profissionais que citei que ganham mais de 5 mil por mês. Existem muitas prefeituras, que em seu quadro de funcionários, estão lotadas de “profissionais” desqualificados que podem ser colocados (e o são), muitas vezes até por cargos comissionados e sem nenhuma exigência de uma formação declarada.

    Enquanto existem cargos como esse, temos diversos exemplos de empresas que ofertam vagas a salários que me deixam revoltado, solicitando um extenso conhecimento e um pagamento totalmente desproporcional ao conhecimento exigido. Pode ser dito para mim, Diego vá para fora, se você for um bom profissional você irá longe, irá ganhar dinheiro na Europa, no Canadá, ou em lugar A ou B, mas quero dizer que o que eu queria era uma valorização da profissão aqui no Brasil, mas precisamente no meu estado. Queria trabalhar AQUI, ganhar dinheiro AQUI, sem precisar sair dAQUI. As vagas de emprego na região estão sendo preenchidas por pessoas despreparadas, por não termos uma regulamentação, algo que defina o que nós fazemos, que diga para que viemos e o quanto somos importantes. Muitas pessoas, e digo muitas com convicção, não sabem nem o que faz a profissão. Somo qualquer coisa e ao mesmo tempo não somos nada. Não existe uma definição para o que fazemos.

    Esse problema que citei é um dos muitos existentes. Não concordo com o fato de dizer que “a única razão que justifica a regulamentação de uma atividade profissional é proteger a sociedade da imperícia dos profissionais que atuam nessa área”, essa ao meu ver, é uma dentre outras razões e não a única. A desculpa de que se dedicando e sendo um bom profissional irá fazer você ganhar muito não desce mais pela garganta, pois preciso me formar e ser um profissional excepcional para ganhar um bom salário, enquanto pessoas despreparadas estão assumindo cargos que deveriam estar reservados para pessoas que dedicam anos de sua vida a obter uma certificação (diploma de nível superior), que estudam, se dedicam. Hoje dentro do estado da Paraíba temos diversas vagas, carentes de profissionais que realmente tenham uma formação, mas são obrigadas a comportar “profissionais” apontados por fulano, beltrano ou sicrano pois não existe nada que diga, só pode exercer tal cargo aquele que for formado em curso X e com registro em lugar Y. Qualquer um pode se dizer “profissional”. É como o indivíduo que se diz “hacker” porque sabe criar uma conta fake e “se passar” por outra pessoa em alguma rede social por exemplo, e o pior de tudo é a sociedade realmente achar isso pois ela mesma não sabe o que é isso.

    Nunca vi um formado em engenharia ocupar o lugar de um médico, de um advogado, de um enfermeiro. Nunca vi um psicologo ocupar uma vaga de um médico, de um engenheiro dentre diversos outros exemplos, mas o que mais vejo são outras profissões ocupando vagas que deveriam ser nossas! E sabe quais são os motivos, que dentre outros, levam ao deficit de profissionais na área, ao meu ver? A complexidade que o profissional precisa ter em termos de conhecimento para obter um diploma (e manter esses conhecimentos atualizados por toda a sua vida profissional), a falta de estrutura das instituições de ensino, e o principal: OS PIORES SALÁRIOS. A média salarial do profissional de computação assusta, se comparada a outras áreas que venhamos e convenhamos, tem um caminho muito mais tranquilo e com menos espinhos. Infelizmente, Computação, de verdade, hoje no Brasil é só para quem AMA a profissão.

    Concordo com o fato de que a regulamentação não irá fazer um profissional empregado subir de salário, certamente que não, mas a regulamentação da profissão trará benefícios imensos. Quem sabe o que faz e faz com que as pessoas também saibam, ganha dinheiro no Brasil. Em uma profissão que requer estudo eterno para se manter o emprego, a computação no Brasil hoje é deixada de lado.

    Com relação aos contratos, vejo cada dia mais acontecer de pessoas físicas serem contratadas por empresas e até por pessoas físicas para desenvolver sistemas personalizados. Conheço casos de empresas, e aqui em joão pessoa, que compraram softwares de empresas locais, e até hoje não usam, pois o mesmo não atende a sua necessidade, muitas vezes simples de ser resolvida mas que o software generalista não contempla, e que seria facilmente resolvida por um profissional contratado diretamente sem o intermédio de uma empresa e justamente devido as pessoas não terem conhecimento da real importância, deixam de contratar um profissional para realizar um trabalho personalizado que teria um impacto enorme na vida de quem está contratando, em termos de utilidade e eficácia, e quando contratam não tem uma forma como citado no texto de ter um mínimo de garantia sobre o trabalho a ser desenvolvido, estão se deparando cada vez mais com esse problema.

    O mercado está mudando em termos de exigência, o modelo de software tijolo, que não muda, está começando a cada vez mais cair. Principalmente com o advento da internet e dos sistemas web. Lojas, empresas, pessoas físicas, querem produtos cada vez mais específicos para a sua necessidade, e para as pessoas que sabem a importância disso e procuram profissionais no mercado para o fazer, estão se deparando com um mercado “negro”, sem leis, sem regras, precisando na maioria das vezes atirar no escuro.

    Não sou sindicalista, não estou querendo lucrar com um sindicato, sou apenas um mero estudante, que por diversas vezes já pensou em desistir por ver tantos outros caminhos mais fáceis e com resultados mais rápidos, ver muitas vezes a profissão ser desvalorizada, minimizada e ter o título de “o cara que conserta os computadores” porque faz computação, e tantas outras coisas, mas que por paixão e convicção do que gosta e do que quer, ainda está aqui.

    Esse pequeno texto é um desabafo, e também uma expressão da minha opinião. Posso estar até errado, não sou experiente na profissão, mas conto minha experiencia de vida, de ouvir, de falar com as pessoas, de analisar as outras profissões e a forma com que são tratadas. Estou cansado de reportagens de greves, de lutas de classes que ganham absurdos de dinheiro se comparados aos nossos salários, mas que mesmo assim continuam a lutar pelos seus direitos, pela sua valorização no Brasil. Vejo a maioria dos profissionais de Computação no Brasil como bunkers, onde cada um se tranca no seu mundo, no seu “blindado”, junto com a sua equipe, e se satisfaz por estar ali, e os que se arriscam a serem soldados da linha de frente são mortos, sem conseguir fazer com que os bunkers se tornem desnecessários. Dispersão não gera valorização, e creio que uma regulamentação da nossa profissão traria ao menos uma união que, por mais mínima que fosse, já seria suficiente para trazer melhorias para todos nós.

    Novamente reforço que é uma opinião pessoal. Peço desculpas desde já caso venha a ter ofendido em algo, ou até alguém que venha a ler esse texto. Quero deixar claro que não estou querendo tornar ou dizer que a minha palavra/opinião é absoluta, pois até nem tenho cacife para o fazer, mas que esse texto sirva como reflexão, como um novo expoente, ou caminho, ou linha de pensamento, a ser seguida.

    Agradeço a paciência de todos que chegarem até essa linha do texto. Um “boa dia, boa tarde, boa noite e boa madrugada” a todos.

  2. alexandre diz:

    Oi Diego,
    Temos visões diametralmente opostas sobre o assunto.
    Considero extremamente nocivo para o país essa tal “reserva de mercado de profissionais”.

    Veja, por exemplo, os grandes prejuízos causados por nossas experiências anteriores com reservas de mercado, como o caso dos produtos de informática, por exemplo.

    O capitalismo não é um sistema perfeito, mas é melhor que todos os outros.
    Para mim, quanto menos influencia do governo na lei da oferta e da procura, melhor.

    Todos esses casos que você citou podem ser facilmente resolvidos com a legislação que temos hoje. Não precisamos de novas leis (nem de sindicatos, conselhos, etc) para isso.

  3. Diego Alves Rodrigues diz:

    O caso da reserva de mercado para produtos de informática foi algo totalmente OPOSTO ao que estou querendo dizer. Hoje no Brasil nós temos profissionais, BONS profissionais, que estão deixando de entrar em vagas que deveriam ser reservadas a eles.

    Para ilustrar o que estou querendo dizer e quis dizer no texto, vejamos um profissional que acabou de se formar por exemplo. O jovem é capacitado, preparado, estudou por toda a sua graduação tentando realmente ser bom e sai a procura de emprego. Na cidade temos 1 vaga de emprego que atualmente é a única e o salário seria bom para esse profissional que saiu da graduação e está a procura de emprego, mas devido a falta de um órgão regulador E fiscalizador, a única vaga que existia em joão pessoa foi ocupada por uma outra pessoa, sem o tempo de graduação, sem o conhecimento real adquirido após 4 árduos anos de estudo (no mínimo), e indicado por alguém, ou então assumiu uma vaga e por “entender” foi para outra. Vemos a situação do nosso novo formado, em uma cidade que NÃO EXISTEM mais VAGAS na realidade, e o mesmo se vê obrigado a mudar de região, de cidade, ir para longe de família, amigos, onde poderia ter ficado aqui, trabalhando aqui, sem precisar ter que se colocar em regiões que ele não conhece e ter que sofrer para conseguir vencer.

    Esse caso é totalmente diferente da reserva de mercado dos produtos de informática que ocorreu no Brasil. Realmente o texto inteiro que escrevi não deixou claro o que quis dizer quando falei de “reserva de mercado profissional”.

    E vamos falar de uma vaga pública onde podemos reclamar mais do que em uma empresa privada. Esse mesmo camarada assumiu uma vaga que deveria ser sua pois ele não é um profissional da área. Ai você, 1 pessoa, entra com um processo contra o ESTADO, muitas vezes a UNIÃO, passa anos gastando com advogados (pois com advogados do governo é que você não consegue mesmo), pra tentar ABRIR a vaga, para que você possa concorrer a ela. Acho isso um tanto inútil e é isso que acontece na realidade, e o profissional se vê obrigado a aturar esse tipo de coisa, e sair a procura de um novo local que na maioria das vezes é pior.

    Vivemos no BRASIL. Na legislação são facilmente resolvidos como foi falado, mas a legislação é apenas um pedaço de papel (não deveria ser, mas na nossa realidade ela raramente é seguida da forma como deveria, e quando o é, leva um longo período de tempo). E novamente repito que estamos no BRASIL.

    O sindicato por exemplo, um conselho, serviria para por ordem na casa. Um sindicato (que seja forte) entrando contra o Estado, ele pode surtir muito mais efeitos do que um mero cidadão comum. Um sindicato ou conselho (forte, novamente repito) ele tem forças para conseguir ser ouvido. Nunca vi, pelo menos de forma tão constante, engenheiros sem formação trabalhando. E é disso que estou falando. Tenho pessoas próximas que sabem trabalhar melhor do que um engenheiro muitas vezes, mas isso são pessoas que viveram muito anos para adquirir a experiência, que um engenheiro de verdade com o mesmo tempo iria acumular muito mais (na grande maioria dos casos), e muitas vezes apenas ao concluir uma graduação já tem quase o mesmo conhecimento e ainda com a vantagem de ser algo aprendido de forma correta (ou pelo menos deveria ser assim), sem chances de cometer “erros bobos”.

    Vejamos exemplos como sindicatos de medicina, farmácia, o próprio conselho de Civil, dentre outros. São ouvidos dentro do país, se alguém o acha que não, garanto que muito mais do que um reles “transeunte” na porta do governo pedindo uma esmola.

    Se não precisamos de mais leis, nem sindicatos, nem conselhos, nem nada disso, porque não temos todos os erros corrigidos já? Porque problemas como o que citei ocorrem todos os dias?

    Realmente para o capitalismo isso parece horrível, pois o certo é 1 Ganhar muito dinheiro e 1 milhão não. E aqueles que tem seu bom emprego se satisfazem sem se importar com o outro que está ainda a procurar onde trabalhar, sem pensar em melhorar a condição do que irá vir depois dele. Foi o que tentei dizer com a história dos bunkers. A imagem que tenho da universidade, e a maioria dos colegas tem e muitas vezem não falam, é que o cara SOFRE pra se formar e parece que todos tem que SOFRER também, como se isso fosse algo totalmente natural e certo.

    O Brasil está inchado de profissionais despreparados, sem produzir o esperado, aumentando custos de projetos, não atendendo as expectativas dos clientes, não atendendo as suas reais necessidades e fazendo com que muitos percam tempo. E isso é que, ao meu ver, causa a contratação de profissionais muitas vezes de fora do Brasil (esse out-sourcing).

    Entendo o ponto de vista, mas não vejo razões nem soluções que excluam os problemas atualmente enfrentados na área, pelos modelos atualmente vigentes no Brasil. Mas penso como tiririca, realmente, pior do que está, não fica.

  4. alexandre diz:

    Diego, essa reserva de mercado não existe em nenhum pais civilizado.
    Por que o Brasil deveria ser o pioneiro nisso?